O que Carmem sente – Angústia
Angústia…
Aquela necessidade de ar, aquela necessidade absurda de ar, aquela vontade desesperada por ar.
Precisar respirar e o ar não entrar.
E se respira mais fundo, e mais fundo, e mais fundo e o ar não entra.
Um nó, uma gravata, um laço, um braço apertando o pescoço.

Uma bigorna esmagando o peito.
Os pulmões comprimidos, os pulmões tão estreitos como uma folha de papel.
Tão estreitos…
O ar não entra. Não há ar que entre.
Desespero. Desespero.
E se respira mais fundo, e mais fundo e o ar não entra.
A visão fica embaçada.
A sensação de vertigem.
As coisas sem cor.
O olhar que não vê.
A sensação de estar fora da realidade, totalmente fora da realidade, pairando.
Aquela sensação inexprimível de ar, de falta de ar, precisar de ar, desesperadamente de ar.
..
Esta é uma parte de um texto que está no livro. A personagem Carmem sofre com sua solidão, com suas mágoas, com sua inabilidade frente à vida. Escrevê-lo não foi um exercício de imaginação. Durante anos sofri de violentas crises de angústia. Andava com ansiolíticos por todos os lados, tomando ora comprimidos inteiros, ora pedacinhos de comprimidos para aliviar a inexplicável sensação de opressão. Meu peito parecia esmagado, eu não conseguia respirar.
Um dia decidi gravar o que estava sentindo. Pedi a minha mãe um gravadorzinho de mão e fui relatando todas as minhas sensações. Momentos depois, já medicada e em um momento de tranquilidade, digitei o que ouvi. Fui imediatamente acometida de outra grave crise.
Hoje, após um sério tratamento com antidepressivos e tendo uma Escola de Sabedoria como grade respaldo, estou livre de qualquer vestígio daquelas sensações.
Um dia pretendo escrever um outro livro exclusivamente sobre a Carmem. Nosso único ponto de contato é a angústia. De forma alguma ela é uma personagem autobiográfica. Mas, através dela, posso mostrar como é possível a total recuperação e a conquista de uma vida de paz.
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